No dia 9 de setembro, um sábado, a menina participou de uma gincana na escola. A sua tarefa era personificar uma representação da paz. A equipe escolheu que ela usasse uma fantasia de Dandara, guerreira negra que lutou pela proteção do Quilombro dos Palmares.
Depois do desfile, os jurados deram a vitória para a adolescente. Por isso, os estudantes da equipe adversária fizeram diversos comentários racistas contra a menina em um grupo de mensagens. No dia seguinte as mensagens chegaram até a adolescente.
O g1 teve acesso a duas das mensagens de conteúdo racista enviadas pelos adolescentes:
"Se escolhesse da nossa, porque é cor branca e tal, rum... A escola ia ser chamada de racista, pô. É por isso! Isso aí foi roubo, ta ligado?".
"Eles roubaram, eles falaram que aquela menina lá, a menina da paz, ganhou da nossa. A nossa era um anjo e aquela dali era o lixo".
No dia seguinte, domingo (10), uma colega da adolescente avisou para que ela não fosse para a escola na segunda-feira (11), porque alguns estudantes teriam planejado zombar dela. Na terça-feira (12), a menina chegou a ir para a escola, mas ligou para a família pedindo para ir embora antes do final do horário de aula.
Desde então, ela não foi mais, deixou de sair de casa e até de frequentar a igreja. Segundo o pai, Claudinilson Martins, a situação afetou a menina e toda a família.
"Ela ficou triste. Até um pouco deprimida, calada. Porque ela é uma pessoa alegre, tem muitas amizades. As amigas dela também ficaram muito tristes com o que aconteceu, e eu também, fiquei revoltado", disse.
Claudinilson Martins, pai da adolescente - Adolescente é vítima de comentários racistas por colegas de escola após vencer prova de gincana.O advogado da família da menina contou que o caso foi noticiado ao Ministério Público e as provas estão sendo reunidas para ser feita uma denúncia para a Polícia Civil.
"A Polícia Civil deve identificar os autores desse fato. A informação preliminar é de que são adolescentes. Se forem, devem responder segundo o Estatuto da Criança e Adolescente", explicou o advogado Chrystopher Luan.
Em nota, a escola informou que identificou um aluno como autor dos áudios, convocou seus pais para tratar do assunto e ele recebeu uma punição de acordo com o regimento interno - o que não foi detalhado. A equipe adversária, de onde teriam partido os comentários racistas, também divulgou uma nota repudiando o caso.
Leia abaixo a nota da escola e da equipe adversária à da adolescente:
NOTA DE ESCLARECIMENTO
Desde que tomou conhecimento do ocorrido, a Escola imediatamente buscou identificar os envolvidos. Após a confirmação da identidade de um aluno como autor dos áudios, seus responsáveis foram chamados e o aluno foi penalizado conforme dispõe o regimento interno desta instituição.
Reafirmamos nossa solidariedade à aluna e nosso apoio integral à família, com quem temos mantido contato direto. Lembramos que a luta contra o racismo é diária e cabe a todos nós atuar para que episódios como esse não se repitam.
Atenciosamente,
A Direção
Nota de repúdio da equipe adversária
NOTA DE REPÚDIO
Devido aos incidentes criminosos envolvendo a aluna vencedora da prova "Garota Cidadão Cidadã" e a equipe Mirana, a organização da equipe vem por meio esta, falar que repudiamos qualquer tipo de ato ou fala racista e ofensas, não importando a circunstância.
Nada justifica o que aconteceu durante essa semana. A comissão pede perdão a aluna em nome de toda equipe e esperamos que a justiça seja feita.