
Ao longo dessa década, Catto se reinventou como artista – em movimento salutar que o libertou da aura kitsch imposta pela indústria da música e o trouxe de volta para a cena indie – e como ser humano, passando por mudança de gênero.
O renascimento artístico foi iniciado com o segundo álbum de estúdio – Tomada (2015), álbum de menor voltagem formatado com produção musical de Kassin – e concluído com o estupendo álbum posterior, CATTO (2017), base do show que rendeu turnê pelo Brasil, encerrada precocemente em virtude da pandemia.
A turnê dá à luz hoje o segundo disco ao vivo dessa cantora e compositora de origem gaúcha, há anos residente na cidade de São Paulo (SP). Foi em Sampa que, em 13 de março de 2020, sob a direção musical de Felipe Puperi, Catto fez sem saber a última apresentação do show O nascimento de vênus, já que, no dia seguinte, todos os palcos foram fechados para conter o avanço da covid-19.
Foi a partir da captação do áudio dessa apresentação que Filipe Catto deu forma ao álbum O nascimento de vênus tour.
Com o toque da banda formada por Fábio Pinczowski (guitarra), Jojo Lonestar (guitarra, programações e synths), Magno Vito (baixo e synth bass) e Michelle Abu (bateria e percussão), Catto rebobina a luminosidade de composições como É sempre o mesmo lugar (Romulo Fróes e César Lacerda) – raio x dos anseios do povo de um país que parece sempre viver por um triz – e Saga (Filipe Catto, 2009), ponto de partida da trajetória da artista, repisado no show entre ruídos e beats eletrônicos.
O álbum O nascimento de vênus tour chega ao mundo simultaneamente com filme criado por Catto com Daguito Rodrigues e Juliana Robin. A narrativa visual do filme expande o áudio do derradeiro show em espetáculo de linguagem híbrida que entrelaça estéticas de clipe, documentário, moda e vídeo-arte, costurando imagens de arquivo com takes da performance gravada por Catto no estúdio Imaginar (SP) em 31 de julho deste ano de 2021.
No estúdio, Catto assumiu a pose e o figurino de sereia, seguindo o roteiro do show captado somente em áudio em março de 2020. A exibição de imagens de arquivo – como o da audição do álbum CATTO para amigos – por vezes interrompe o fluxo da narrativa para quem se interessa somente pelo som potente formatado pela produção musical orquestrada pela artista com DJ Jojo Lonestar.
O show tem atmosfera eletrônica e por vezes futurista, como evidenciado nas abordagens do hit Eva (Umberto Tozzi e Giancarlo Bigazzi, 1982, em versão em português de Marcos Ficarelli) – previamente apresentada em single em 3 de dezembro – e da febril Torrente (Filipe Catto e Fábio Pinczowski, 2017). Os trinados agudos ao fim de Adoração (Filipe Catto, 2011) expõem a eletricidade do canto límpido da sereia.
No entanto, tudo parece estar no lugar e fazer sentido no império sensorial de Filipe Catto – inclusive composições autorais que resultam sem o poder magnético da voz que cai a capella no samba Roupa no corpo (Filipe Catto, 2009). É o caso de Lua deserta (Filipe Catto), de cuja letra foi extraído o título do show O nascimento de vênus.
“Não sei quanto tempo passei submersa. Estou viva, entregue ao mistério”, recita Fillpe Catto, emergindo em cena com a ardência que caracteriza o canto da sereia no show que gerou o álbum O nascimento de vênus tour.