Bruna Lombardi define sua atividade literária em uma imagem: ela escrevendo em uma mesa, enquanto uma equipe de mudança carrega o móvel de um lado para o outro. A atriz, roteirista, poeta e escritora conta que produziu todos os seus livros em meio ao caos, interrompida por trabalhos paralelos, viagens, tarefas do dia a dia e exposições públicas que a sua celebridade exige.

Foi assim com os dois títulos da autora que chegam agora às livrarias. O recém-lançado romance “Mulheres que sentem os espíritos” (Record) explora temas como luto e espiritualidade. Já a nova edição revista e ampliada de “Diário do grande sertão” (Autêntica) registra os bastidores da minissérie “Grande sertão: veredas”, produzida pela TV Globo em 1985, e reflete os desafios de interpretar o/a icônico(a) Deodorina/Diadorim de Guimarães Rosa.

— Sempre me acostumei a focar nos ambientes mais caóticos — disse a autora, de 74 anos, que divide o tempo entre sua mansão no Morumbi (São Paulo) e Los Angeles (EUA). — Escrever para mim é o que tem de mais sagrado, mas nunca tive esse luxo que certos amigos escritores têm, de poder se retirar 20 dias em alguma casa isolada para terminar um livro.

Imortal paulista

A turnê literária do lançamento de “Mulheres que sentem os espíritos” a levou para Rio de Janeiro (onde conversou com o GLOBO), Paracatu (Minas Gerais), Brasília e Bienal do Livro de São Paulo. Nesse meio-tempo, foi eleita para a cadeira 15 da Academia Paulista de Letras e soube que vai ser avó pela primeira vez.

Em uma sala reservada de um hotel de luxo em Copacabana, a nova imortal paulista tirou as sandálias e relaxou dobrando as duas pernas para o lado em cima da poltrona. Pose zen e chapéu (“adoro, faço coleção”), explicou de onde tira a paz para escrever.

— Paz é um negócio interior, que você carrega ou não — definiu. —É como aquele lugar mais profundo do oceano, que nenhum homem alcança... a não ser o James Cameron (diretor de “Titanic” e explorador das profundezas marinhas). Quando escrevo, vou para este lugar.

A fórmula precisa ser testada, mas tem dado certo para Bruna. Seu segundo romance, “Mulheres que sentem os espíritos” não parece fruto da desordem. Escrito mais de 30 anos após o primeiro (“Filmes proibidos”), tem um sabor sereno de idade madura, com a autora refletindo sobre os seus aprendizados. É uma mistura de drama psicológico, comédia romântica, mistério, romance de viagem e de formação tardia, mas, acima de tudo, uma história de transmissão e amizade feminina, muito franca, generosa, aberta ao mundo.

Lorena, a protagonista, é daquelas pessoas que, de tanto evitar conflitos, acabam fugindo de si mesmas. Passou anos em um casamento morno e em uma vida social e profissional alheia a exposições. Mantém uma relação simbiótica com Dora, mulher negra que foi acolhida por sua mãe e que considera sua irmã. Após perder a mãe, Lorena entra em uma jornada de autodescobrimento, que irá reconectá-la com seu passado familiar e com as suas próprias potencialidades espirituais.

A dinâmica racial das irmãs chamou a atenção de Djamila Ribeiro, considerada uma das principais vozes da luta contra o racismo estrutural. Na orelha do livro, a autora de “Lugar de fala” destacou a profundidade, “sem excesso de retórica”, com que Bruna aborda temas difíceis como culpa e herança espiritual.

— Quando falo sobre ancestralidade no livro, não estou falando sobre a minha ou sobre a da Djamila, porque é claro que temos histórias diferentes — explicou Bruna. — Estou falando de uma ancestralidade anterior. Meu livro é sobre a união que nós (mulheres) tínhamos antes que nos ensinassem as nossas diferenças. Lorena e sua irmã têm privilégios diferentes, mas isso não as impede de se unirem.

Libertação

A história de Bruna começa em uma casa cheia de livros. Muito jovem, interessou-se por Freud e poesia. Escrevia versos na faculdade de jornalismo e já era uma das modelos mais requisitadas do país quando escreveu seu primeiro livro de poemas, “No ritmo dessa festa”, em 1976. Na época, o editor apresentou os originais a um conselho, sem revelar o nome da autora. O editor ficou todo feliz quando comentaram que o texto parecia escrito por um homem.

— Para ele, era um elogio — recordou.

No prefácio ilustre, escrito por Chico Buarque, outro elogio amargo-doce. O compositor explicou que era preciso separar o rosto de Bruna da poesia de Bruna.

— Eu sempre tive que conviver muito com essa separação — disse. — Até que eu falei: “Quer saber, eu vou juntar isso. Eu vou escrever, vou ser roteirista dos meus filmes, trabalhar como atriz, produzir, ter controle.” Ocupar todos esses espaços foi uma forma de chegar no meu poder.

Libertada da outra Bruna, ela lançou em 1984 “O perigo do dragão”, o livro “mais feminino que eu podia fazer”. Os versos sobre desejo a colocaram em uma capa da Veja com o título: “O erotismo da nova mulher.”

— Você percebe o salto que eu dei, de “mulher que escreve como homem” para “voz da nova mulher”? Eu estava falando sobre mulheres e dizendo para as mulheres: “Se libertem.”

Chega-pra-lá em Bon Jovi

Bruna vive há 48 anos com o ator Carlos Alberto Riccelli, “o melhor cara do planeta”. Ela conta que só teve “exemplos de bons homens” na sua intimidade, do pai “fabuloso” ao filho “bárbaro”, que “amam e respeitam” as mulheres. Mas, ao longo da vida, também desenvolveu um instinto de preservação. Ícone da beleza, a atriz de novelas como “Louco de amor” (1983) e “Roda de fogo” (1986) sabe identificar de longe um homem problemático.

— Não tive na vida o terror de ter um cara tóxico do meu lado, e isso só aconteceu porque tenho a minha sensibilidade, o meu sinal de alerta — conta a autora. — Você pode imaginar, numa carreira como a minha, teve muitos caras querendo se aproximar de mim. Mas assim que estourava, que o cara fazia uma coisinha micro, eu já o colocava longe da minha cabeça, da minha vida. Por mais que ele fosse o máximo.

Mesmo quem não era nascido no auge do estrelato de Bruna nos anos 1980 e 1990, conhece, graças à internet, um de seus momentos mais empoderados. Nas redes, viralizou o trecho do extinto programa “Gente de expressão”, exibido pela Band nos anos 1990, em que atriz assume o papel de apresentadora e entrevista o astro pop Jon Bon Jovi. Cheio de si, o cantor saiu do roteiro no meio da conversa e disse que “gastaria muito dinheiro” para fazer a entrevistadora feliz. Bruna rebateu, afirmando que tem a sua própria carreira e independência financeira.

O vídeo ganhou ares de manifesto de emancipação feminina, mas Bruna não guarda uma má lembrança de Bon Jovi.

— Ele foi infeliz na colocação dele, mas não é uma má pessoa de jeito nenhum — disse. — Depois, pediu desculpas, disse que não queria me ofender. Mas eu sou assim, o meu limite para aceitar um desvio é mínimo. O cara fala uma bobagem e já escuta, eu vou constranger quem for em qualquer situação. Pode ser o presidente da república, ou sei lá quem, eu não não vou deixar avançar numa coisa que considero fora do limite.

'Pisando no medo'

Lançado dentro das comemorações de 70 anos de “Grande sertão: veredas”, “Diário do grande sertão” tem uma ligação improvável com “Mulheres que sentem espíritos”. Ao contrário do romance, é uma não-ficção, que relata a experiência real nas filmagens da icônica adaptação televisiva da obra-prima de Guimarães Rosa. Mas também é, de certa forma, uma obra sobre formação: uma atriz que descobre uma dimensão de si mesma e de seu ofício.

Mais que uma paisagem, o sertão é um espaço psicológico, em que uma estrela deixa o conforto da vida urbana e aprende a manejar a faca, enfrenta escorpiões e monta cavalo selvagens. Para interpretar o ambíguo Diadorim, personificação do feminino e do masculino, que nasce mulher mas se identifica como homem, a atriz constrói dentro de si um corpo masculino e uma força física que desconhecia.

Autor de “Para ler Grande sertão: veredas”, o crítico Ítalo Moriconi, que participou de uma mesa com a autora na Bienal de São Paulo, foi o primeiro a apontar: enquanto todo o romance de Guimarães Rosa é contado a partir do ponto de vista dos homens do sertão, o diário de Bruna/Diadorim pode servir como um curioso registro feminino da história.

— Eu tenho um poema mais recente que diz: “Eu fui pisando no medo até chegar na coragem” — disse Bruna. — Acho que ele define como me tornei Diadorim. Descobri esse poder da mulher sem poder ser mulher. E esse Diadorim atenuado, sem poder pegar a faca e degolar alguém, é como as mulheres vivem até hoje, não podendo mostrar tudo que elas são.