Um levantamento do Núcleo de Estudos de Segurança do Trânsito (Nest) da Universidade de São Paulo (USP) mostra que o risco de morrer no trânsito está diretamente relacionado à situação econômica de uma região. No Brasil, a chance de perder a vida é de sete a 13 vezes maior do que em países desenvolvidos, como Japão, Suécia, Alemanha, França, Estados Unidos e Reino Unido. E, nos Estados brasileiros mais pobres, o trânsito mata mais do que nos ricos.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores levaram em consideração a quantidade de quilômetros rodados em cada Estado, com base no consumo de combustível divulgado pela Agência Nacional do Petróleo (ANP), e o número de mortos contabilizado pelo Ministério da Saúde. Piauí e Maranhão estão na frente no “ranking”.

Dois problemas são citados para explicar o maior risco de mortalidade no trânsito dos Estados pobres: o pequeno investimento do poder público em segurança e a intensa circulação de motos nessas áreas.

De acordo com a pesquisado Nest, no Piauí, a chance de morrer no trânsito é de 147,38 por bilhão de quilômetros rodados – ou quatro vezes maior do que em São Paulo, o Estado mais seguro, com índice de 37,6 mortes. No Maranhão, a chance de perder a vida é de 123,23 por bilhão de quilômetros rodados, enquanto no Rio, o quinto Estado mais seguro, o índice fica em 50,35 mortes.

Para o professor Coca Ferraz, coordenador do Nest e orientador da tese de mestrado que levantou o risco de morte no trânsito, a mesma lógica que explica a diferença no índice de países ricos e em desenvolvimento se aplica aos Estados brasileiros: as regiões mais pobres buscam suprir as necessidades mais urgentes da população, como alimentação e moradia, as mais ricas podem se voltar para outras prioridades.

“O Estado mais desenvolvido investe mais em segurança no trânsito, melhorando a condição das vias, por exemplo. Já nos Estados mais pobres, a prioridade é investir em coisas mais prementes para a população”, avalia.

Segundo o consultor em transportes Luís Antônio Seraphim, as motos representam uma fatia cada vez maior no total de veículos em circulação nos estados mais pobres: “As motocicletas contribuem nas estatísticas. A moto é um veículo à procura de um lugar para acontecer um acidente”.

O diretor do Departamento de Trânsito (Detran) do Piauí, José Antônio Vasconcelos, diz que as motos são as responsáveis pelo fato de o Estado ocupar o topo da lista de mortalidade proporcional do trânsito brasileiro. “Em São Paulo, o número de motos sobre o total de carros é pequeno. Mas se pegarmos uma cidade do interior do Piauí, a quantidade dos dois veículos é quase a mesma. Por causa da situação econômica do nosso estado, muitas pessoas que não têm dinheiro para comprar carro acabam optando pela moto”, afirma.

Mesmo nos Estados brasileiros mais ricos, a chance de perder a vida no trânsito é muito maior que em nações desenvolvidas, segundo a pesquisa do Nest. Na Suécia, país com o melhor resultado entre os sete pesquisados, o índice fica em 4,4 morte – em São Paulo, é oito vezes maior.

Na França, com o pior desempenho depois do Brasil entre os países avaliados na pesquisa, o risco de morrer no trânsito é de 7,8 mortes para cada bilhão de quilômetros percorridos. Na média entre Estados ricos e pobres, o Brasil apresenta uma chance de perder a vida de 57,72. Os cálculos são baseados em dados de 2008 e 2009.