Das maravilhas de Teresa Cristina, fez-se o esplendor de uma noite
28/02/2021 às 21:12 Atualizado em 28/02/2021 às 21:18 3 min de leitura

Entronizada em 2020 no posto de rainha das lives, pela promoção de encontros noturnos que aglutinaram estrelas da MPB e público afinado com as lutas por liberdade e justiça social, Teresa Cristina ocupa atualmente outro patamar no escalão da música brasileira.
Contudo, a artista pisou no palco da casa Vivo Rio com a mesma simplicidade, ideologia e repertório de shows anteriores, como se sinalizasse que a vida a fez assim e que, sim, continua fiel a si mesma e às escolhas que tem feito ao longo da carreira fonográfica iniciada em 2002.
Tal fidelidade soou perceptível na saudação política ao povo de santo, nos punhos cerrados com que encerrou o canto do samba-enredo Heróis da liberdade (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira, Império Serrano, Carnaval de 1969) – primeiro número de bloco que encadeou sambas das agremiações foliãs do Rio de Janeiro em homenagem aos profissionais do Carnaval – e na maneira com que iniciou a apresentação.
Após apresentar da coxia os seis músicos da banda, a cantora entrou no palco e reproduziu o medley com Gorjear da passarada (Argemiro Patrocínio e Casquinha, 1981) e A vida me fez assim (Argemiro Patrocínio e Teresa Cristina, 2004) perpetuado no álbum e DVD O mundo é meu lugar – Teresa Cristina e Grupo Semente ao vivo (2005).
Na sequência, a artista reacendeu Candeeiro (Teresa Cristina, 2002), samba com o qual, há 19 anos, começou a abrir alas e pedir passagem como compositora entre a nobreza dos bambas.
Na pele de pantera negra, realçada pelo figurino brilhante de Milton Castanheira, Teresa Cristina recusou o posto de diva quando, após saudar Oxóssi em Capitão do Mato (Teresa Cristina, 2010), pediu ao roadie para tirar as sandálias que a incomodavam. “Elegante nem está, mas tô livre”, festejou a artista, com a liberdade de ser quem é.
E, por ser quem é, Teresa Cristina apresentou, ao longo do roteiro da Live de aniversário, quatro músicas inéditas que soaram fiéis à ideologia musical da compositora, valorizando a apresentação.
Em Canto pra Ogum (Teresa Cristina, 2021), a artista saudou o orixá em número em que o gestual de Teresa sublinhou o significado dos versos desse samba de toque africano em que a cantora tanto apontou a lança de Ogum como o próprio progresso como intérprete.
Nostalgia (Teresa Cristina, 2021) ganhou a forma de samba de toque rural, evocativo tanto do universo do calango fluminense quanto da pegada da chula baiana – com direito à letra que versou liricamente sobre o voo do passarinho, símbolo do amor que vai embora.
Parceria de Teresa com Moacyr Luz, bamba do samba carioca, Yabá (2021) afagou a doçura feminina da mulher afro-brasileira. Fechando o lote de inéditas, Dona do ouro (Teresa Cristina, 2021) louvou Oxum no canto resplandecente da artista com a batida do samba afro, gênero recorrente no cancioneiro autoral da compositora. Aliás, pela intimidade com essa linha do samba, a cantora expôs toda a luminosidade de Gema (Caetano Veloso, 1980).
Fonte: G1 PI
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