O processo teve início em 2008 quando Mestre Expedido entregou ao Iphan o pedido de registro – abaixo-assinado com 20 assinaturas, solicitando reconhecimento do Ofício e Modos de Fazer Arte Santeira do Piauí como Patrimônio Cultural do Brasil.
Em 2019, foram realizados pesquisa de campo e eventos de esclarecimento sobre o registro e tombamento da igreja junto às comunidades detentoras em Teresina e Parnaíba.
Leia abaixo sobre esses dois patrimônios do Piauí:
A Igreja Nossa Senhora de Lourdes
Igreja Nossa Senhora de Lourdes, bairro Vermelha.Construída entre as décadas de 1960 e 1970, a igreja localizada no bairro Vermelha abriga um acervo de arte sacra que inclui obras de grandes mestres da escultura em madeira, como Mestre Dezinho e Mestre Expedito.
A Igreja Nossa Senhora de Lourdes foi erguida após o Concílio Vaticano II, como parte de um esforço da Igreja Católica em se aproximar das classes trabalhadoras. A construção foi projetada para ser um ambiente onde os símbolos de fé dialogassem com a cultura popular local.
Neste contexto, o pároco convidou os mestres Dezinho e Expedito para esculpirem em madeira peças de devoção, inspirados pelo artista Afrânio Castelo Branco, autor de pinturas presentes na igreja.
Altar da Igreja Nossa Senhora de Lourdes, bairro Vermelha.Além da preservação arquitetônica, o valor cultural da igreja está centrado nas peças artísticas que expressam a devoção popular, fruto do trabalho de mestres santeiros, cujas esculturas são tidas como parte do patrimônio artístico e espiritual do Piauí.
O antropólogo do Iphan, Daniel Oliveira, lembra que o processo de tombamento da igreja da Vermelha começou há quase 20 anos e nasceu da necessidade de proteger piso bruto que diferencia a igreja de todas as outras.
“Finalmente a igreja Nossa Senhora de Lourdes será reconhecida como patrimônio cultural do Brasil, com seu tombamento definitivo. Mas além disso, a arte santeira do Piauí a da forma como os mestres se expressam sua arte na madeira também será contemplada nesse momento histórico” disse Daniel.
A mobilização em torno do tombamento envolve também a comunidade, que há anos se empenha para que o valor desse patrimônio seja formalmente reconhecido. Uma das defensores do projeto, dona Francisca Mendes, viveu a construção da igreja e organizou o pedido inicial de tombamento. “Saber que a igreja vai ser preservada para as futuras gerações é uma alegria muito grande, pois é um patrimônio de toda a comunidade e do estado”, comenta Francisca.
Arte santeira de madeira do Piauí
Arte santeira na Central de Artesanato Mestre Dezinho em Teresina.A Arte Santeira do Piauí é uma manifestação plástica que utiliza a madeira como matéria-prima, com atributos artísticos e culturais presentes na talha de esculturas, oratórios, painéis e peças de mobiliário. Resulta de um fenômeno sociocultural que ocorreu no estado do Piauí na década de 1970.
Tal forma de expressão ganhou destaque por intermédio de iniciativas eclesiásticas, governamentais e do mercado de arte, que passou a nutrir um interesse por artefatos de origem popular, incentivando os santeiros de Teresina, de Parnaíba, de Campo Maior, de Pedro II e de José de Freitas, principais locais de produção.
Nos anjos, nos santos e nos “caboclos” talhados pelos santeiros piauienses, são reconhecíveis algumas semelhanças morfológicas, como a estrutura maciça e vertical das esculturas. Outro aspecto comumente encontrado nas peças é a estilização das formas e o predominante acabamento monocromático delas.
Não há, no entanto, uma padronização da produção e cada santeiro define um estilo próprio. O entalhe de personagens sagradas e profanas carrega referenciais visuais ligados ao agreste piauiense, tendo carnaúbas, bacuraus, mandacarus e outros elementos da fauna e flora como motivos decorativos.
XVII Salão de Arte Santeira do Piauí.