Dona de casa reside ao lado de uma caixa d´água que está vazia.Maria dos Navegantes, 28 anos, mora no povoado Itapecuru e há um ano paga R$ 5 por 15 litros de água. Isso porque o poço que abastecia 80 famílias que moram no povoado secou. Segundo ela, o pagamento acontece porque os 120 litros de água, oferecidos pela Prefeitura e transportados em carro-pipa , não são suficientes.
“Também me vejo forçada a pagar quando o carro-pipa não vem. Às vezes o veículo quebra e ficamos sem água. Além disso, o abastecimento acontece somente três vezes por semana. Eu tenho duas filhas e com crianças em casa não dá para ficar um dia sem água, por isso sou obrigada a pagar para o vizinho R$ 5 por um depósito de 15 litros”, afirma Maria dos Navegantes.
Juscelino Alves cobra para transportar galões de água.O pagamento é feito para alguns proprietários de caminhonetes que utilizam o transporte para carregar galões de água. Juscelino Alves de Carvalho é um dos donos de caminhonetes que cobram pelo frete. Em entrevista ao G1, ele explica que a cobrança serve para custear as despesas com a viagem.
“Nós vivemos sem água há muito tempo. Há três meses uns moradores me pediram para pegar água no poço de Santo Hilário, mas como eu não tinha o dinheiro para abastecer recebi uma quantia e fui pegar a água. Eu não lucro à custa da desgraça dos outros, até porque vou buscar água só duas vezes por semana. Quando a pessoa não pode pagar, eu levo o galão dela assim mesmo. O dinheiro que ganho é todo investido em gasolina e em peças para o carro”, disse o motorista.
Sem condições financeiras para pagar pelo frete, Pedro de Araujo de Sousa, 76 anos, há nove meses comprou um burro e uma carroça para transportar os 140 litros de água que tira de um poço localizado na comunidade vizinha. O aposentado reside na comunidade Baixa do Camará e consegue água no povoado Santo Hilário, distante 5 km de sua residência.
Duas vezes por semana ele faz o trajeto que dura aproximadamente uma hora e trinta minutos. Nem mesmo o sol escaldante é motivo para que Pedro fique em casa e não cumpra a rotina. “O sol é muito quente, mas se eu ficar em casa esperando o tempo ficar mais frio eu não consigo água, porque o operador da bomba, que fica no poço, tem hora para ligar e desligar”, conta Pedro de Araújo.
Aposentado percorre em uma carroça 10 km em busca de água.O líquido é usado no consumo diário do aposentado e da esposa. Também bebem da mesma água os poucos animais que conseguiram resistir à seca. “Eu tinha 10 cabeças de gado, mas deixei de criar porque as despesas são muito grandes, além disso, eles não resistem no período de estiagem. E assim que os primeiros animais começaram a morrer, resolvi vender e fiquei apenas com uma vaca por causa do leite, porém a fabricação dela é pouca. Hoje minha criação de animais se resume aos porcos, galinhas e um burro”, lamenta Pedro.
A plantação de milho, feijão, melancia e abóbora não prosperou e, ainda de acordo com o aposentado, os R$ 300 investidos em sementes foram jogados fora. Pedro explica que por não ter condições de pagar pelos galões de água é obrigado a fazer o percurso duas vezes ao dia.
População se reúne para pegar água em caixa d´água na cidade de Cocal.A situação de Raimundo Nonato de Assis, 36 anos, não é muito diferente do aposentado Pedro de Araújo. Raimundo é lavrador e nos momentos de folga ocupa o tempo pegando água em cima de uma bicicleta. Ele mora no povoado Santo Hilário, abastecido por duas caixas d´água de 15 mil litros, mas como não tem encanação, não recebe água na torneira de casa e tem que percorrer 300 metros em uma bicicleta com um galão de 30 kg.
“Tenho dois filhos que necessitam de água para beber e tomar banho. Minha esposa também precisa lavar roupas e louças, ou seja, para executar a maioria das atividades domésticas é necessário água. Não dá para viver sem esse líquido e, como ela não tem condições de vir até a caixa d'água, tenho que fazer esse percurso quando não estou trabalhando”, explica o lavrador.
Dona Maria Marques de Araújo reside a 20 metros da caixa d´água, no entanto, a dona de casa precisa colocar um balde com 15 litros de água na cabeça para as tarefas domésticas.
“Eu não tenho encanação em casa, por isso carrego água na cabeça. O peso do balde me incomoda, mas agradeço a Deus por morar perto da caixa d'água. Não quero nem pensar como seria minha vida se a distância fosse maior, porque meus filhos não podem ajudar. Meu sonho é que um dia esta situação mude”, afirmou Maria Marques.
O assessor de comunicação de Cocal, Jefse Vinute, informou que o transporte de água em carro-pipa é um paliativo. Ele disse que outras medidas serão tomadas a partir desta quinta-feira (3).
“A prefeitura da cidade vai perfurar 19 poços tubulares em um projeto que será executado em parceria com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Realizamos um estudo que identificou os locais onde não há água, logo, dentro de poucos dias resolveremos a situação da falta de abastecimento de água na Zona Rural de Cocal”, afirmou.
