Naomi Scotti, como Jasmine, e Mena Massoud, como Aladdin.Embora aclamado pela crítica e adorado pelo público, o longa Aladdin de 1992 teve sérios problemas com a formação de estereótipos.Por isso, a Disney queria evitar repetir os problemas na versão live-action, lançada em 24 de maio. Eles procuraram o Conselho Consultivo Comunitário formado por acadêmicos, ativistas e artistas do Oriente Médio, do Sul da Ásia e muçulmanos.
Fui convidado para fazer parte do grupo por causa de minha experiência em representações de árabes e muçulmanos na mídia dos Estados Unidos. O fato de um grande estúdio querer ouvir a comunidade árabe reflete o crescente compromisso de Hollywood com a diversidade.
Mas enquanto o live-action de Aladdin consegue retificar alguns estereótipos, ainda deixa muito a desejar.
Gênios mágicos e xeques lascivos
No livro Orientalismo: O Oriente como invenção do Ocidente, de 1978, o professor de literatura Edward Said argumentou que as culturas ocidentais historicamente estereotiparam o Oriente Médio para justificar o controle sobre ele.
O orientalismo em Hollywood tem uma longa história. Os primeiros filmes, como O Sheik (1921) e As Mil e uma Noites (1942), retratam o Oriente Médio como uma terra de fantasia monolítica – um deserto mágico repleto de gênios, tapetes voadores e homens ricos que vivem em palácios opulentos com suas meninas de harém.
Filme O Shiek, de 1921.Embora essas representações fossem indiscutivelmente tolas e inofensivas, elas achataram as diferenças entre as diversas culturas do Oriente Médio, ao mesmo tempo em que retratavam a região como atrasada e necessitada de civilização pelo Ocidente.
Depois veio uma série de conflitos na região: a guerra árabe-israelense de 1967, o embargo do petróleo árabe de 1973, a crise dos reféns no Irã e a Guerra do Golfo. Na mídia norte-americana, o exótico Oriente Médio desapareceu, e surgiram representações de violência e terroristas sinistros.
Como observou Jack G. Shaheen, acadêmico de mídia, centenas de filmes de Hollywood nos últimos 50 anos ligaram o Islã à guerra santa e ao terrorismo, ao mesmo tempo em que descrevem os muçulmanos como “invasores alienígenas hostis” ou “xeques lascivos com intenção de usar armas nucleares”.
Momentos dignos na animação Aladdin
Contra esse pano de fundo, o Orientalismo da animação de 1992 não foi tão surpreendente. A letra da música de abertura, na versão em inglês, descreve um terreno "ende eles cortam sua orelha se eles não gostam do seu rosto" e "é bárbaro, mas hey, está em casa!".
Quando o Comitê Anti-Discriminatório Americano-Árabe protestou contra as letras, a Disney retirou a referência de cortar as orelhas no filme que foi vendido em VHS e DVD, mas deixou o termo “bárbaro”.
Animação Aladdin, da Disney, de 1992.Depois, havia as formas pelas quais os personagens eram retratados. Como muitos notaram, os maus árabes são feios e têm sotaques estrangeiros, enquanto os bons árabes – Aladdin e Jasmine – possuem características européias, são quase brancos e sotaque norte-americano.
O filme também continuou a tradição de apagar distinções entre as diversas culturas do Oriente Médio. Por exemplo, Jasmine, que deveria ser de Agrabah – originalmente Bagdá, mas ficcionalizado por causa da Guerra do Golfo em 1991 – tem um tigre chamado Rajah.
Progresso questionável
Após o 11 de setembro, surgiram longas que reencenaram antigos terroristas. Mas, surpreendentemente, algumas representações positivas de personagens do Oriente Médio e muçulmanos foram produzidas.
Em 2012, publiquei meu livro Árabes e Muçulmanos na Mídia: Raça e Representação após o 11 de setembro. Nele, detalho as estratégias que escritores e produtores usaram após os ataques para compensar os estereótipos.
O mais comum é a inclusão de um patriota do Oriente Médio ou de um muçulmano norte-americano, para "equilibrar" suas representações como terroristas. Na série de TV Homeland, por exemplo, Fara Sherazi, analista da CIA, é muçulmana de descendência iraniana e norte-americana. Ela é morta por um terrorista muçulmano, mostrando que "bons" muçulmanos norte-americanos estão dispostos a morrer pelos Estados Unidos.
Mas isso não mudou o fato de que o Oriente Médio e os muçulmanos eram, de modo geral, retratados como ameaças ao Ocidente. Adicionar um "bom" personagem do Oriente Médio não ajuda a combater estereótipos quando a maioria ainda aparece em histórias sobre terrorismo.
Outra estratégia também surgiu nos roteiros: reverter para velhas tropas orientalistas do exótico e romântico Oriente Médio. Talvez escritores e produtores acreditassem que representar a região como exótica seria melhor do que associá-la ao terrorismo.
O filme de 2004, Mar de Fogo, por exemplo, conta a história de um caubói norte-americano que viaja ao deserto da Arábia em 1891 para participar de uma corrida de cavalos. Na moda orientalista clássica, ele salva a filha do xeque rico do sobrinho que é maligno e faminto de poder.
Já o longa Victoria e Abdul, de 2017, descreve uma improvável amizade entre a rainha Victoria e seu servo indiano-muçulmano, Abdul Karim. Enquanto o filme critica o racismo e a islamofobia da Inglaterra do século XIX, também infantiliza e exotiza Abdul.
No entanto, alguns problemas gritantes persistiram. Jake Gyllenhaal foi escalado para o papel principal de O Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo (2010), enquanto Christian Bale e Joel Edgerton foram escalados em Êxodo: Deuses e Reis (2014) como personagens egípcios. E por que atores brancos assumiram esses papéis? Quando desafiado, o produtor Ridley Scott infamemente afirmou que ele não poderia “dizer que meu ator principal é Mohammad fulano de tal e tal coisa. Não vou financiar isso”.
O novo Aladdin tem progressos?
Talvez como desejo de evitar erros do passado, os executivos da Disney procuraram conselhos de consultores culturais como eu. Certamente, há progressos notáveis ??na versão live-action.
O ator canadense-egípcio, Mena Massoud, faz o papel de Aladdin. Dada a escassez de pessoas de ascendência do Oriente Médio em papéis de protagonismo, a importância de escalar Massoud não pode ser exagerada. E apesar do fato de alguns brancos terem sua pele escurecida durante as filmagens, a Disney colocou atores com descendência árabe na produção.
A decisão de ter atriz britânica-indiana, Naomi Scott, como Jasmine era controversa. Muitos esperavam ver uma atriz árabe ou do Oriente Médio nesse papel, e se perguntavam se a escolha de alguém de ascendência indiana simplesmente reforçaria as noções de intercambiabilidade "oriental". No entanto, o filme faz referência que a mãe de Jasmine é de outra terra.
O maior problema com o Aladdin de 2019 é que perpetua a tendência de reverter ao Orientalismo mágico – como se fosse uma melhoria em relação aos retratos de terroristas. Na verdade, não é animador trocar o racismo explícito pelo exotismo clichê. Para ser justo, Aladdin distingue-se de Hidalgo e outros filmes orientalistas com essa tendência, visto que não gira em torno das experiências de um protagonista branco.
Filme Aladdin, de 2019.No entanto, mais uma vez, os personagens com sotaque norte-americano são os “mocinhos”, enquanto aqueles com sotaques não-americanos são em grande parte, mas não inteiramente, “ruins”. E o público hoje será tão pressionado quanto em 1992 para identificar quaisquer culturas distintas do Oriente Médio além daquelas de um “Oriente” supergeneralizado. Dança do ventre e dança de Bollywood, turbantes e keffiyehs, sotaques iranianos e árabes – todos aparecem no filme de forma intercambiável.
Assim como fazer ajustes positivos em uma história sobre o terrorismo não é muito importante, o mesmo acontece na trama sobre o Oriente exótico. Diversificar representações requer ir além desses tópicos ??e expandir as narrativas.
Aladdin, é claro, é um conto fantástico, então perguntas sobre precisão representacional podem parecer exageradas. É também um filme divertido em que Mena Massoud, Naomi Scott e Will Smith brilham. Mas ao longo do último século, Hollywood produziu mais de 900 longas que estereotipam árabes e muçulmanos – o que influencia a opinião pública e as políticas públicas.
Se houvesse 900 filmes que não retratassem árabes, iranianos e muçulmanos como terroristas, títulos como Aladdin poderiam ser "apenas entretenimento". Até lá, teremos que esperar que o gênio deixe retratos mais sutis e diversificados da lâmpada.
* Evelyn Alsultany é professora de Estudos Americanos e Etnia, da Faculdade de Letras, Artes e Ciências da Universidade do Sul da Califórnia Dornsife, nos EUA. Este artigo foi escrito em inglês e originalmente publicado no The Conversation.
