Os resultados individuais conquistados pelos judocas do Piauí e os espaços que foram pensados para abrigar projetos para desenvolver a modalidade no estado podem ter passado a impressão de que tudo vai bem. Mas o professor Expedito Falcão, técnico da campeã olímpica Sarah Menezes, discorda do atual cenário.
- Incentivo até hoje não tem. Isso tudo é ilusão. O que nós vivemos hoje é um reflexo do que começamos na década de 80. Todos têm uma visão muito romântica do judô somente baseado nas conquistas, mas quem está aqui diariamente tem a visão realista - afirmou Expedito.
As criticas do técnico são direcionadas ao material humano do Piauí. Para o treinador, a maioria dos atletas teria condições de chegar bem na disputa de uma vaga para integrar a seleção brasileira, mas fazem "corpo mole". Ele relembra que o Bolsa Atleta, em algumas categorias, chega a ter um valor superior ao salário mínimo e critica os atletas que se apresentam desestimulados diante de uma competição.
Expedito declara que atletas do estado fazem 'corpo mole' por não aproveitarem potencial.Segundo o técnico, o judô piauiense teve três boas gerações de competidores: Expedito Falcão e Queiroz Filho na década de 80; na década seguinte vieram Eduardo Castro e Benito Mussoline Neto; Sarah Menezes nos últimos anos.
Recentemente promovido ao 5º Dan da faixa preta, que vai até o décimo, o técnico de Sarah Menezes reafirma a condição de não interromper suas atividades no judô.
- Foi um reconhecimento pelo que eu já fiz pelo esporte. Eu sou um ex-atleta que quero continuar evoluindo, aprendendo e repassando o que eu souber. Nunca fui santo, mas aprendi a tirar as coisas positivas do que eu vivi para fortalecer o espírito, ainda sou novo, tenho muito a repassar - concluiu.
Carreira: 'O Judoca e o Monstro'
Expedito Falcão oscila entre dois papeis diferentes: o técnico realizado e o atleta frustrado, como se define.
- Consegui o que poucos técnicos conseguiram, cheguei ao ápice de ter uma atleta conquistando um título olímpico, formei outros professores e agora vejo os alunos deles. Mas, como atleta, faltou uma única coisa: nascer em outro estado - alegou Expedito.
Justificando suas palavras com sua trajetória, ele relembra que para viajar pela primeira vez o professor Danys Queiroz, hoje presidente da Federação Piauiense de Judô, teve de trabalhar como estivador para conseguir o dinheiro da passagem.
Lutando na categoria até 60kg, os primeiros treinamos, em 1984, eram feitos com atletas mais pesados. Danys Queiroz, com 85kg, era o parceiro de treinos e lutas que chegavam a durar uma hora. A situação se repete, hoje, com atleta Sarah Menezes. Em determinados dias, ela possui apenas Giordano Bruno para realizar seus treinamentos.
- Dói saber que você tem o mesmo nível técnico dos atletas lá de fora, mas a gente chegava para competir e perdia por punições porque o braço não dava, a mão não segurava o quimono, o pulmão não dava, não tinha volume nos treinos - recorda.
Sem dinheiro para pagar as primeiras aulas de judô, Expedito fazia a função de serviços gerais na academia para praticar o esporte. Treinando em um tatame de lona de caminhão revestido de palha de arroz, o técnico foi nove vezes campeão Norte-Nordeste e conquistou a primeira medalha internacional do Piauí.
