Imagem: Marco FreitasClique para ampliarJosé Fortes relembra a derrota do Brasil na Copa de 1950.(Imagem:Marco Freitas)José Fortes relembra a derrota do Brasil na Copa de 1950.

Aos 90 anos de idade, José Fortes, contabilista aposentado, aguarda com otimismo a Copa do Mundo no Brasil. Para ele, a chance da seleção brasileira ganhar a competição em casa pela primeira vez é bastante especial. De uma família de exportadores de carnaúba de Parnaíba, no litoral do Piauí, José Fortes foi estudar contabilidade no Rio de Janeiro, então capital do país, onde morou de 1946 a 1960 e acompanhou de perto a comoção dos torcedores quando o Brasil sucumbiu diante do Uruguai na final da Copa de 1950. Mais de 60 anos depois, morando em Teresina, a memória não trai seu José Fortes. Ele relembra, consternado, aquele dia fatídico.

- O gol contra o Uruguai aconteceu no finalzinho quando muita gente já estava se locomovendo para descer e comemorar lá em baixo. Imagina a confusão – comentou seu José Fortes, que ia de vez em quando ao Maracanã.

José Fortes destaca a força do Brasil que viu vencer a Iugoslávia abarrotando o estádio com 150 mil pessoas. Foi no começo de uma tarde de sábado, 1º de junho de 1950. O jovem estudante, então com 27 anos de idade, deixara o almoço para se encontrar com colegas e bater papo na frente do hotel onde morava. A cidade respirava a decisão entre Brasil e Iugoslávia, que valia a classificação para o quadrangular final do Mundial. Era o evento do ano. Mas sem ingresso, José Fortes comentava com os colegas que perderia a importante partida, quando recebeu um inesperado presente.

- Após o almoço, estava sentado na frente do hotel onde eu morava e, quando eu estava conversando com colegas, um cidadão, de uma certa idade, me ouviu falar que eu só não iria ao jogo porque não tinha dinheiro para comprar o ingresso. Então, ele colocou a mão na carteira e dela tirou uma entrada para o jogo e me deu. Era de uma cadeira cativa que ele tinha comprado por 10 anos no Maracanã, mas não usaria nesse dia – lembra o aposentado.

Tendo deixado a família em Parnaíba ainda adolescente para estudar e sem muito dinheiro sobrando para a diversão ver a seleção brasileira na Copa do Mundo de graça era uma oportunidade que não escaparia.

- Numa cidade como o Rio de Janeiro, em que na época só se falava de futebol, nesse dia, lógico que a maioria das pessoas se dirigiam ao estádio. Como me ofereceram uma entrada, eu fui ver o jogo, bem acomodado, com cadeira marcada posicionada no centro do campo – conta.

E deu sorte. Em campo, ele viu uma equipe brasileira poderosa que fez uma partida muito difícil contra a Iugoslávia, líder do grupo. Anos mais tarde, o goleiro Barbosa deu um depoimento em que considerou este o jogo mais complicado daquele mundial. Por sorte, o Brasil contava com a volta de Zizinho, que jogou machucado, mas deu o passe para Ademir Menezes anotar o primeiro gol. No segundo tempo, o próprio Zizinho marcou o gol que sacramentou a classificação. Os brasileiros vibraram novamente com a seleção após o decepcionante empate contra a Suíça. E, claro, José Fortes saiu satisfeito do estádio.

- Tínhamos vários jogadores de renome que dispensavam qualquer crítica, como o Ademir Menezes, o ‘Queixada’, o Zizinho, que era jogador do Bangu. Esse foi o craque da Copa e era um perfeito jogador - elogia.

Imagem: Marco FreitasJosé Fortes acredita em vitória brasileira no Maracanã.(Imagem:Marco Freitas)José Fortes acredita em vitória brasileira no Maracanã.

Aquele estranho não apareceu para oferecer de novo uma cadeira cativa na decisão. José Fortes não viu o Brasil perder a Copa com 200 mil pessoas no Maracanã, mas estava ligado no rádio.

- Lamentavelmente, não ganhamos. Mas são intempéries da vida – lamenta conformado.

Com a proximidade da Copa do Mundo, aumenta a ansiedade para ver o Brasil continuar essa história, mas agora com final feliz, sem "Maracanaço".

- Eu não torço por time nenhum. Por curiosidade, ia aos jogos para encontrar com os amigos e era bom ver aqueles jogadores que entravam em campo para ganhar mesmo. Mas hoje vemos esse rapazinho que está surgindo, o Neymar. Ele não tem defeito como jogador. Eu acredito que nós estamos bem servidos de jogadores. Vamos ganhar sim. É ‘pra frente Brasil’.