Este foi um dos casos que mais chamou atenção entre os registrados pelo Ministério Público do Trabalho do Piauí nas fiscalizações feitas em 2017. O resgate dos trabalhadores foi realizado no dia 1º de setembro deste ano e o valor total calculado para o pagamento dos trabalhadores é de R$ 86 mil que, dividido entre eles, resultaria em cerca de R$ 3,9 mil para cada um.
Grupo foi resgatado e ação na justiça tenta garantir o pagamento."Eles não receberam pagamento em dinheiro durante todo o período em que prestaram serviços a uma certa empresa. A Procuradoria do Trabalho está em negociação na justiça para providenciar o ressarcimento para as pessoas que trabalhavam em condições análogas à de escravos", disse o procurador, que preferiu não informar qual a carvoaria.
O procurador explicou que os trabalhadores vendiam o carvão a pequenos compradores, quando conseguiam, isso porque a pequena quantidade não tem valor de venda tão grande quanto a que é produzida pelas carvoarias.
“Os empregadores conseguem um consumidor para o produto e este trabalhador dificilmente tem a mesma facilidade de comercializar carvão como o empregador, que já tem o comprador, as siderúrgicas, que compram em grandes quantidades pela demanda logística. Além desses 22 trabalhadores em uma carvoaria, também fizemos o resgate de 20 trabalhadores em situação de exploração na extração de madeira ”, destacou Edno.
Procurador Edno Carvalho Moura, da Procuradoria Regional do Trabalho - 22ª região.No estado do Piauí, o procurador diz que os dados mais significantes do trabalho escravo estão relacionados à extração da palha da carnaúba, bem como extração de madeira e carvoaria, que sempre se destacou no quesito exploração. Ele destaca que as ocorrências de trabalho escravo são quase totalmente registradas no segundo semestre de cada ano.
"As atividades de carvoaria e extração da palha não acontecem no primeiro semestre por conta das chuvas que dificultam este trabalho, no segundo semestre onde as atividades são mais intensas é quando ocorre o trabalho escravo", explicou.
De acordo com o procurador Edno Moura, do Ministério Público do Trabalho do Piauí, a procuradoria tem recebido denúncias em outras áreas, como da produção de soja no sul do estado. Contudo, algumas denúncias não têm sido comprovadas.
Ele contou ao G1 que a maioria das empresas não são clandestinas, mas registradas e tecnicamente regulares perante as exigências necessárias para atuar legalmente. Isso muitas vezes dificulta que os trabalhadores percebam que estão sendo explorados.
“Quem é vítima de trabalho escravo às vezes nem percebe aquela situação, mas é possível identificar pelas condições ofertadas como, por exemplo, o trabalhador não ter acesso às instalações sanitárias adequadas, ou o alojamento estar em condições insalubres, sem conforto mínimo, a alimentação é inadequada e a água não é potável”, ressaltou. Ele cita ainda a carga horária exaustiva como um dos principais fatores que configuram o trabalho escravo.
Pelo menos R$ 86 mil deixaram de ser pagos a 22 trabalhadores.Denúncias e resgates
Nos últimos 14 anos foram resgatadas cerca de 900 pessoas no Piauí, estado que ocupa o 2º lugar no ranking nacional de ocorrências de trabalho escravo. A cidade de Redenção do Gurguéia é a que registrou mais resgates no estado.
Segundo o procurador Edno moura, os casos na produção de carvão são mais frequentes do Centro-Sul ao extremo-Sul do Piauí. Ele explicou ao G1 que a extração da palha de carnaúba é realizada do Norte ao Centro-sul e os empregadores têm buscado alternativas para fugir da fiscalização.
"Em 2014 foram realizados 160 resgates, em 2015 diminuiu para 60, já em 2016 reduziu para cerca de 30 e estamos vendo como ficará em 2017. Tínhamos muita migração de empregadores e trabalhadores vindos do Ceará para extrair a palha mas, devido ao maior enfrentamento no Piauí, eles estão indo para estados onde o enfrentamento é menor, como Maranhão, às margens do Parnaíba, e no estado da Bahia, próximo a São Raimundo Nonato", pontuou.