Imagem: DivulgaçãoUniversidade alemã oferece bolsa para não fazer nada(Imagem:Divulgação)
 Projeto de arte dará 1.600 euros para candidatos que apresentarem as melhores ideias sobre o que pretendem não fazer. Iniciativa quer estimular reflexão sobre valores da sociedade."Boa noite, senhoras e senhores, bom dia, caros artistas", é assim que se brinca muitas vezes de forma irônica sobre a profissão de quem trabalha no meio cultural. Agora foi a vez da Universidade de Belas Artes de Hamburgo (HfBK) anunciar uma bolsa para não se fazer nada. Qualquer um pode se inscrever, artista ou não. O idealizador do projeto, Friedrich von Borries, promete 1,6 mil euros (mais de R$ 10 mil) para cada um dos três candidatos que mais convencerem o júri.

Mas o projeto de arte, como a universidade chama a iniciativa, é menos sobre o dolce far niente, ou "o doce fazer nada". Os candidatos devem, antes de tudo, declarar o que exatamente não querem fazer (mais) e por quanto tempo pretendem não fazê-lo.

"Pode ser um apresentador de rádio que decide não dizer nada por cinco minutos em um programa. Ou alguém que não quer produzir lixo plástico por um mês", disse Borries à DW. As propostas dos candidatos à bolsa serão apresentadas a partir de 6 de novembro de 2020 numa exposição no Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo.

O que acontece quando deixamos de fazer algo? Quais são as consequências disso para o meio ambiente, a sociedade, a saúde, o clima? Com a iniciativa, o arquiteto, curador, designer e escritor quer ajudar a mudar a sociedade.

"Para a transformação ecossocial, precisamos de uma mudança cultural e, para isso, temos que mudar nosso comportamento", afirma. "Mas essa mudança só pode ser alcançada quando mostramos perspectivas positivas, em vez de pregarmos a renúncia!" Segundo Borries, a renúncia soa muito negativa. "Todo mundo acha bom colocar os pés para cima. Mas ninguém gosta de ouvir que não pode mais fazer isso ou aquilo."

"A ausência de resultado", conforme define Borries, seria uma rejeição do pensamento focado no desempenho. Basta de tentar ser mais alto, mais rápido ou ir mais longe. "É sobre sair da espiral de luta pelo sucesso, da roda do hamster." Ele lamenta que o status social ainda seja medido por referências como tamanho da casa, velocidade do carro ou espessura do relógio.

"Se queremos viver numa sociedade que usa menos energia e desperdiça menos recursos, esse é o sistema de valores errado", explica Borries. "Não seria muito melhor ganhar prestígio social com ter tempo para sonhar, tempo para ir nadar com as crianças, encontrar amigos, colocar os pés para cima, tempo para não fazer nada?" Este é o debate que Borries deseja iniciar e, assim, moldar a sociedade de amanhã.